Um amigo me perguntou: quem veio mais forte em sua vida, o
amor ou a felicidade?
É algo muito interessante de se observar... são sentimentos
tão ligados, tão sintonizados, tão sinônimos...
Sempre tive tudo e não era feliz. Muito bem tratada,
acolhida, cuidada, orientada, acarinhada, mas faltava algo, buscava algo, que
pensava ser alguém. Buscava o amor. Amor que pensava ser de um homem, amor de
um companheiro, amor dos contos de fadas... buscava e não encontrava. E o vazio
sempre presente. Considerava-me ingrata, por que tão insatisfeita se a vida me
dava tudo com tanta facilidade?
Em tantas idas e vindas, em tantas experiências,
experimentos, abismos, questionamentos, eu me vi numa busca religiosa,
espiritual, na busca por respostas, mas encontrei cada vez mais perguntas. E a
agonia era disfarçada por alguns períodos e retornava ainda mais forte.
Só então entendi que o tal amor era uma busca por mim, todos
os questionamentos visavam à compreensão de mim mesma, a razão de minha
existência e a rota a seguir para atingir a tal meta... Meta...
Sempre cheia de fé. Sempre acreditando. Sempre confiando
cegamente. Esperando atingir um estado de ser equilibrado, iluminado, uma paz
que permitisse uma vida realmente feliz.
Portas abrindo e fechando. Mas nunca duvidei de que o abrir e
fechar era uma forma do Universo me conferir uma direção, me guiar ao propósito
maior. Qual?
Não estamos sozinhos, não somos sozinhos, fazemos parte de
algo gigante, de algo acolhedor, onipotente, que se move através de nós, que
faz parte de cada um de nós. Essa foi a grande sacada. Esse foi o ponto alto da
busca. Esse foi o instante do encontro com o entendimento: EU.
O autoamor, a autoaceitação, a compreensão de que não é o
outro, não é o amor do outro ou pelo outro que nos completa, que realmente
buscamos, mas o amor por nós mesmos. Aquela sensação de que nada mais importa,
nada mais existe, e, ao mesmo tempo, de que tudo se encaixa perfeitamente e
tudo está aqui dentro, que acolhemos todo o mundo dentro de nós, que penetramos
na alma do mundo, sentimos e absorvemos, sentimos e compartilhamos, sentimos e
simplesmente somos. E não há como esclarecer mais do que isto, não há como
dizer em palavras o que é incognoscível, indefinível, o que é divino...
A sensação, o estado, o sentimento, o ser amor, é a razão de
tudo, é a própria felicidade, é a razão de existir. Pude perceber o que é
felicidade quando pude transbordar o amor...
Aí veio a insegurança, a dor, o medo, o vácuo. Porque a
entrega é total e irrestrita, porque a confiança é tão plena que não há espaço
pra qualquer sinal de dúvida, então o ser é a própria razão de existir e ser
feliz é um estado de amor-gratidão permanente por tudo o que a vida oferece. E
até o amor-homem se fez presente.
Mas há o mundo. Há a mente. Há a lógica e a
razão cobrando e criando regras e condições, criando metas e objetivos, criando
o desejo de reciprocidade, de igualdade, como se todos ao redor estivessem
compartilhando do mesmo êxtase, da mesma pureza de espírito, do mesmo desejo de
amar e amar e amar e amar... e vem a cobrança, e a decepção, e a descoberta de que
a maldade existe, de que não se pode confiar indiscriminadamente,
indistintamente, e vem a necessidade de se autoproteger, de se cercar apenas de
quem sabemos nos amar verdadeiramente, dos poucos em que confiamos nossa
verdade, nossa espontaneidade, nosso ser mais desnudo, mais puro, mais
original. E o mundo se reduz. E o amor fica restrito. E a alma tão gigante, tão
infinita fica pequena, apertada, fechada num paraíso reduzido por cercas
protetoras que não impedem a dor porque nasci para amar, e gosto de amar, e meu
peito aperta e explode, e meu ser sufoca porque preciso transbordar, preciso me
doar, me abrir, abraçar, beijar, gritar, cantar, gargalhar, amar, amar, amar,
amar e amar essa vida por completo, com todos dentro, com o mundo dentro...
então a cabeça lembra da dor da decepção, da enganação, da risada irônica que
não conhece o que é espontâneo, que não acredita no que é puro, que duvida do
amor incondicional, e o medo vem, e eu me fecho em meu mundo restrito, em meu
mundo de escolhidos que me amam de verdade, os amores da minha vida, que me
veem como sou, que compreendem e sorriem com minha mania de mudar, com meu
jeito diferente e bonito, com minha meninice gostosa, com os comentários maldosos
repentinos de quem precisa se defender pra não sofrer os mesmos enganos, mas que
não desiste das pessoas, porque não desiste de si mesma, porque sempre
acredita, porque tem em si a própria essência da vida, porque adora o amor,
vive pra amar e não consegue viver de outra forma, senão tudo perde o sentido.
E agora, quase dois anos depois, encontro esse texto. É a minha história. E fico em êxtase ao vislumbrar meu caminhar durante esses anos... Como é lindo viver! Cada momento é único!
Agora posso dizer
que não há agonia, que não existe razão para defesas. Que o amor habita em mim.
E esse amor move minha vida. A cada passo, a descoberta de que todos vivem essa
busca, ainda que não saibam disso... E que o amor está em todo ser e há muito
em nós para compartilhar. Não precisamos temer. Apenas agir. Há muito a fazer
nesse mundo. Esse é o sentido de tudo. Sentir. Amar. Compreender. Observar.
Compartilhar. As pessoas são lindas e as diferenças são degraus a trilhar.
Acreditar? Hoje nem está em cheque. Somos luz.
E o amor? Ah, amor. Não é pontual. É incondicional.
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